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O que é Maternidade Atípica e por que precisamos falar sobre ela?

  • Foto do escritor: Luciana Garcia
    Luciana Garcia
  • 3 de jan.
  • 4 min de leitura
fotos de um exame gestacional morfológico são dispostos em uma superfície com pedaços de tecidos que indicam roupas de bebê


A maternidade atípica é uma expressão usada para definir a experiência de mães cujos filhos são pessoas com deficiência. Esse termo surgiu para dar visibilidade a uma realidade que, apesar de comum, ainda é pouco compreendida e muitas vezes invisibilizada pela sociedade.


Quando falamos em maternidade, pensamos imediatamente em desafios universais: noites mal dormidas, a adaptação da rotina, a conciliação entre vida pessoal e profissional. Mas, quando esse filho nasce com uma deficiência, a jornada ganha camadas adicionais de responsabilidades, desafios e, também, de luta por direitos. É isso que caracteriza a maternidade atípica.


Mãe é mãe. Então, por que “mãe atípica”?


A mãe atípica carrega todas as responsabilidades de qualquer mãe, mas precisa ir além. Sua rotina envolve:


  • Conciliar trabalho e vida doméstica com uma agenda intensa de terapias multidisciplinares;

  • Passar longos períodos em hospitais por causa de cirurgias ou tratamentos contínuos;

  • Enfrentar planos de saúde e processos judiciais para garantir os direitos de seus filhos;

  • Dialogar com escolas, gestores públicos e entidades para garantir inclusão e acessibilidade;

  • Lutar diariamente contra o capacitismo estrutural da sociedade;


Enquanto muitas mães se preocupam em levar os filhos ao balé, inglês ou esportes, a mãe atípica luta, antes de tudo, para que seu filho tenha condições dignas de vida, autonomia e oportunidades equivalentes às das crianças típicas.


Essa realidade não diminui as conquistas de outras mães, mas evidencia uma diferença estrutural: a mãe atípica vive uma jornada dupla dentro da maternidade, marcada pela necessidade constante de enfrentar barreiras sociais, legais e culturais.


Por que o termo “atípica”?


Assim como o termo “pessoa com deficiência” substituiu expressões capacitistas como “portador de deficiência” ou “pessoa com necessidades especiais”, a palavra “atípica” foi escolhida para provocar reflexão.


No dicionário, “típico” aparece como sinônimo de “normal”, e “atípico” como “anormal”. Mas, dentro do movimento de mães e famílias, a palavra não é usada nesse sentido. O termo foi ressignificado para expressar o que é menos frequente, diferente do padrão esperado.


Este movimento do "atípico", visa esvaziar a conotação negativa do emprego do termo "pessoas normais" vs "pessoas especiais", uma vez essa dualidade traz consigo um preconceito latente.


Atípica não é anormal


É importante deixar claro: as mães atípicas não querem ser vistas como anormais. Ao contrário, querem mostrar que sua vivência, embora diferente da maioria, é legítima, válida e merece reconhecimento.


Usar a palavra “atípica” tem três grandes propósitos:


  1. Romper com a ideia de normalidade

    • Quando chamamos alguém de “normal”, criamos automaticamente a categoria “anormal”, que reforça estigmas.

    • “Atípica” desloca essa lógica, mostrando que não se trata de anormalidade, mas de incomum.


  2. Dar visibilidade à diferença

    • A maternidade de um filho com deficiência tem especificidades que precisam ser reconhecidas.

    • Nomear essa experiência ajuda a revelar desigualdades e a reforçar a luta por acessibilidade e direitos.


  3. Criar pertencimento e identidade

    • Assim como outros movimentos sociais, mães se apropriaram do termo para se reconhecerem como grupo.

    • “Atípica” virou um ponto de encontro simbólico que une milhares de mulheres em torno de uma mesma luta.


Portanto, ser mãe atípica não é ser anormal. É ser mãe em um contexto de maiores desafios e responsabilidades sociais, mas também em um lugar de força, esperança e transformação.


A importância de falar sobre maternidade atípica


Falar sobre maternidade atípica não é apenas contar histórias individuais, mas trazer à tona discussões necessárias sobre:


  • Direitos das pessoas com deficiência.

  • O impacto do capacitismo no cotidiano das famílias.

  • A sobrecarga invisível das mães que precisam ser cuidadoras, advogadas, terapeutas e militantes ao mesmo tempo.

  • A urgência de construir uma sociedade mais inclusiva, amorosa e plural.


Cada vez que usamos esse termo, reconhecemos a existência de milhares de mães que não podem se dar ao luxo de viver apenas a maternidade como idealizada culturalmente. Elas vivem a maternidade como luta, como resistência e como esperança.


Uma realidade que não pode ser ignorada


É também importante neste contexto compreendermos que a maternidade atípica traz desafios que impactam a realidade da mulher de maneira brutal já que:


  • 70% das mulheres perdem os seus empregos depois do diagnóstico do filho (por demissão ou necessidade de cuidado exclusivo);

  • 78% dos pais abandonam a família antes da criança completar 5 anos de idade depois de um diagnóstico;


Esses números trazem para a realidade atípica uma conta que não fecha. Por isto, essa é uma conversa urgente que precisa ser debatida por toda a sociedade. Estamos falando de famílias que precisam de um suporte maior que a maioria e que são invisibilizadas pela grande massa.


A maternidade atípica é desassistida de políticas públicas, de engajamento parental nas escolas, de formação adequada para reinserção no mercado de trabalho.


Um espaço para existir


A maternidade atípica não é “melhor” ou “pior” do que a maternidade típica. Ela é diferente, marcada por desafios específicos que precisam ser nomeados para serem compreendidos.


É um movimento de mulheres que desejam que sua dores sejam reconhecidas e que esperam por espaços de diálogo na sociedade para continuar caminhando.


Ao falar sobre isso, contribuímos para uma mudança cultural: a construção de um mundo que acolhe todas as infâncias, todas as formas de existir, em toda a sua diversidade.


Que tenhamos a coragem de abrir o microfone para essas conversas necessárias. Que possamos educar nossos filhos para conviver com essa realidade. Que eles cresçam aprendendo que a diferença é parte da vida, e que incluir é um ato de amor e de justiça.



créditos:


Por Luciana Garcia

Jornalista, palestrante e especialista em culturas inclusivas. Fundadora do movimento Maternidade Atípica, que atua pela conscientização sobre deficiência, maternidade e equidade social. lucianagarcia.com.br

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